quarta-feira, 15 de junho de 2011

Uma receita

Brasil com passas

Ingredientes:
1 país brutalmente colonizado
3 kg de gente corrupta
4 xícaras de um povo humilhado
2 colheres de sacanagem pura
½ litro de nação acomodada
Pequenas porções de uva passa

Modo de preparo:
Misture a gente corrupta
Com a sacanagem pura
Acrescente a nação acomodada
E o povo humilhado
Deixe tudo descansar
Com toda essa frieza
Que deixa qualquer um desacreditado
Coloque tudo no país brutalmente colonizado
Deixe o calor da indústria esquentar
E quando já estiver bem assado
Coloque a uva passa para enganar
Do mesmo modo que carnaval e futebol
Escondem o país que temos para mostrar

terça-feira, 17 de maio de 2011

Porque não falar de amor...
















Descrição cardiológica


Numa longínqua câmara que se esconde em meu corpo
Existe um artefato chamado meu coração
Há momentos em que ele se assemelha a uma quimera
Em outros não parece orgânico, e sim composto de pedra
Mas o sangue que o impulsiona é principalmente a razão

Ó quimera! Leão, águia e cobra constituem teu corpo
Leão por ser imponente na sua personalidade
Águia por amar a mais justa liberdade
Cobra por esconder um veneno mostrado a poucos

Coração de pedra a frieza é tua sina
Tu foste mineralizado por decepções e erros
Esse é o escudo que o protege de paixões impulsivas
E sentimentos que no fundo não são verdadeiros

Não sou averso ao sentimento
Muito menos a um sério e duradouro relacionamento
Apenas deixo minha racionalidade se superar
Pois se o coração se engana, sou eu o preço quem vai pagar

Mitocôndrias, plaquetas, mitose
Compartilham a função de regeneração
Mas nenhuma maravilha orgânica pode
Regenerar um ferido coração

Mesmo tendo inclinação à insanidade
Uma loucura sem propósito não cometerei
A maior das loucuras, amar quem não te ama
A quem me ama, a essa sim amarei


domingo, 15 de maio de 2011

Ódio


















Sede

Eu tenho sede de justiça
Minha boca seca pede água de juízo
Que venha uma torrente clara e limpa
Para lavar a sujeira deste mundo perdido

Não me permito ignorar tamanha situação
Meu sangue logo entra em ebulição imediata
Vendo porcos imundos portando uma gravata
Vomitando decisões ancoradas em corrupção

Pequenos pardais famintos roubam poucos feijões
E logo são brutalmente massacrados
Enquanto hienas trucidam inocentes e roubam milhões
E permanecem impunes com seus erros ignorados

Nada sou para querer alguém julgar
Minha mão e minha pena estão sujas de sangue
Porém minha alma se inquieta e não posso me calar
A revolta no meu peito parece ser uma constante

Ah! Como desejo que a justiça um dia
Venha como saraiva fulminante em nossos corpos
A injustiça se desintegre na frente dos meus olhos
E minha sede se aplaque como num gole de água fria

sábado, 7 de maio de 2011

Paradoxo









Paradoxo

Minha mente é um paradoxo
A ambigüidade me consome
Eu sou um verme, eu sou um herói
Eu sou simplesmente um homem

O que sou eu?
O que é você?
Simples átomos de forma complexa a se agrupar
Ou uma massa orgânica portando uma alma a sonhar

Bate, bate, bate
A sucessividade dos segundos
Bate, bate, bate
A morte se aproxima em ritmo mudo

É a transitoriedade da matéria
Que no final vira pó, barro e lama
Assim o que importa é o espírito
Seus valores são a sua esperança

A fragilidade do meu corpo deteriorado
É compensada pela força do espírito
O meu carbono pode um dia ter sido inanimado
Mas minha alma nasceu e continuará comigo

Eu só queria acreditar
No que não posso entender
E entender
Que certas coisas não irei saber
Pois só sei que o que eu sei
É um quase-nada por assim dizer
Então às vezes me pergunto
O que é realmente saber?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vai-e-vem político



O povo e o político


Povo                                          político
Povo voto                                  político
Povo voto político
Povo                                  voto político

Povo                                          político
Povo dinheiro                            político
Povo dinheiro político
Povo                            dinheiro político

Povo                                           político
Povo justiça                               político
                               Povo justiça político
Povo raiva                imunidade político
Povo revolta                               político
                              Povo revolta político
                              Povo revolta sumiu!!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A uma flor...








                                
Rosa negra


Ao percorrer um jardim exposto na rua
Uma rosa negra atraiu meu vago olhar
Pétalas escuras que reluziam com o brilho da lua
De uma forma especial conseguia se destacar

Não era igual às outras flores, criadas
Para se tornarem cópias igualadas
Baseadas num modelo imposto de beleza

Modelo esse de beleza artificial e destrutivo
Homogenizando as flores num grande ciclo repetitivo
Distorcendo a diversidade da própria natureza

Mas para meu espanto, no olhar de outras pessoas
Aquela rosa não era tão bela quanto eu dizia
Pois nesta linda negra rosa não havia
As propriedades padronizadas de uma beleza insossa

Tolos de visão embaçada pela mediocricidade
Enxergam apenas com suas pupilas gastas
Pois a beleza externa se apodrece com a idade
E belezas repetitivas enojam por serem forçadas

E quando a beleza preenche o ser interior
Ela ocupa até os recôndidos da célula
Essa beleza extravassa para o ser exterior
Deixando mais belo o que antes já era

Diferente de certas flores que exalam chorume
Ó rosa negra, tu liberas um magnífico perfume
E isso me faz declarar com o mais puro afeto
Que o diferente é que é deliciosamente belo!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Existem dias...

... em que não estamos nada bem.


Espelho

Apenas mais um verme
No meio de tantos outros vermes
Rastejando na imundície da hipocrisia
Se alimentando da mentira e mesquinharia
Que se espalha aqui como uma herpes

Um sentimento de ser diferente
Pode da alma querer emergir
Mas os esforços no âmago da mente
Se dissipam como um castelo de areia a ruir

Pois mesmo com toda a força investida
Para da lama fétida poder se afastar
A imundície parece estar intrínseca a vida
E como um esgoto a céu aberto infesta o ar

Assim me sentia, após acordar
Penteando de modo lúgubre o cabelo
Vendo o horrendo reflexo de meu rosto
Um verme se olhando no espelho